25.5.13

modigliani

Inúmeros os exemplos de mulheres poderosas que habitam no seu próprio olhar, nunca ou raramente tendo saído dele na direcção das coisas visíveis do mundo. Estou-me a lembrar de algumas destas mulheres que, por medo de me esquecer de apenas uma que fosse, e pudor de não ser capaz de as sublimar como merecem, não me atrevo a nomear numa só frase. Estas mulheres são como o lume brando que levamos no corpo da lareira até à cama fria. Vão emergindo da nossa boca e das nossas mãos aos poucos, como os goles de bom vinho saboreados lentamente. Todas habitam nos seus próprios olhos protegidos, na maioria dos casos, por um sobrolho determinado e pálpebras que nos lembram, semideitadas, a Aurora de mármore de Michelangelo Buonarroti. Esta tarde dei início, pela primeira vez, à leitura de uma destas mulheres. As mulheres mais poderosas que eu conheço choram por dentro para ainda mais dentro. À 36ª página de Tanta Gente, Mariana, já eu chorava para fora sobre a minha gata preta. Tenho o sobrolho cansado (que muitos confundem com determinação), tenho as pálpebras negras e ensimesmadas, feitas de papel frágil (que muitos confundem com segredo e intimidade profundos), habito demasiadas vezes fora da escuridão macia dos meus olhos, genuflicto a estas mulheres que me fazem chorar com visibilidade; ao contrário destas mulheres completas, inteiras, como estátuas vivas de mármore esculpidas para sempre, sou uma mulher fraca, mortalmente para sempre.